Meu primeiro natal com APLV

Nós tivemos o diagnóstico da APLV da Camila, nossa filha mais velha, aos 7 meses de vida dela. A Camila nasceu em maio, estávamos às portas do natal e eu fiquei completamente sem chão com o diagnóstico.

Eu custei a começar a escrever este texto porque quando me lembro ainda dói. Era 2014, vai fazer 7 anos, mas eu me recordo como se fosse ontem.

A primeira coisa que me veio à mente foi: “será que é pra sempre”? Será que ela nunca vai poder tomar leite na vida? Respirei e naquela mesma tarde liguei para uma amiga que eu sabia que tinha o diagnóstico de APLV (o que na época eu considerava ainda algo bastante esquisito e inusitado, além de penoso).

Eu perguntei a ela sobre as questões básicas: o que eu ia comer, o que minha filha poderia comer, se ela achava que poderia ser para sempre, como eu poderia ler os rótulos, entre outras dúvidas iniciais que não me recordo mais. Eu lembro dela ser super paciente comigo, o que me acalmou bastante: “Não, não costuma ser pra sempre, no máximo em um ano a maioria das crianças vai curar da alergia ao leite”.

Passado o tumulto inicial, vieram os detalhes: dieta sem leite e derivados pra mãe poder continuar a amamentar a filha. Naquela época quase todas as mães que queriam amamentar as crianças com APLV eram indicadas a fazer dieta de restrição junto com a criança. Lá vai eu né, metendo a louca “guerreira” que podia dar conta de tudo e que estava tudo bem, afinal, era só comida. Mal sabia que ia ficar por mais 2 anos e meio fazendo dieta sem necessidade real.

Eu havia encomendado fazia algum tempo vários docinhos especiais regados à leite e a tudo da culinária tradicional. Eu estava ansiosa por aquele momento e confesso que me doeu ver todo mundo comendo aquilo que eu tanto sonhei e continuar acenando e sorrindo. A Mila era muito pequena, só tomava o leite materno mesmo (o papo sobre a introdução alimentar dela é um outro rolê e assunto para outro momento).

Na mesa tinha de tudo (o que eu não podia comer), mas eu não me organizei e não me preparei adequadamente. Me lembro de comer só arroz e salada no natal. Eu não sabia cozinhar nada e aquela sensação de vazio e de culpa por estar chateada por não comer nada especial me preenchia lentamente.

De repente, no meio das conversas, pedi licença e fui me trancar no banheiro. Eu confesso que sentei e chorei sozinha escondida. Acolhi minha raiva, minha culpa, minha mágoa: “Por que comigo, por que conosco?”.

Ninguém da minha família soube até poucos dias. Vergonha eu tinha de assumir que estava chorando “por comida” no meio do banheiro numa festa de natal.

Com o tempo eu aprendi que alergia alimentar era muito mais que comida, mas eu me adaptei às novas receitas, criei muitas ainda melhores do que as originais. Nem eu nem a minha filha passamos mais vontade nos outros natais.

O “bichinho da alergia” me picou e hoje eu não sou mais a mesma Ju de 7 anos atrás. Um tio meu, vegetariano, o coitado cansou de comer só arroz e lentilha no natal. Nunca o vi reclamar, nem questionar. Todo mundo dele esquecia. Mas depois da alergia da minha Mila, ah, meu tio nunca mais ficou sem mais de um prato vegano de respeito no natal. Eu aprendi a ter mais empatia para com outras pessoas que também têm restrições alimentares por doença, filosofia de vida, intolerância ou alergia alimentar.

E você, já passou por algum natal com APLV? Vou amar ouvir a sua história.

Um beijo carinhoso,

Ju Jordán

@eujujordan

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