Imuno Terapia Oral no tratamento das alergias alimentares

Sabemos que infelizmente ainda não existe um protocolo padrão e de comum acordo com os médicos no tratamento das alergias alimentares. A orientação geral é a de evitar os alimentos aos quais o paciente tenha algum histórico clínico de reações alérgicas e caso haja uma ingestão acidental, um plano de ação emergencial.

Aqui mostramos a Camila, nossa filha mais velha em sua última crise anafilática. Ela precisou de 2 doses de adrenalina. Tinha comido um pedacinho do biscoito do colega que caiu no chão e por curiosidade ela quis provar.
O corpo todo ficou inchado: mãos, barriga, pernas, rosto…. fora isso ela apresentou muita dor abdominal e dificuldade respiratória.

Porém, nós que estamos do “lado de cá”, como familiares dos alérgicos, percebemos que não é tão simples assim retirar os alimentos da vida da pessoa com alergia alimentar. A alimentação é um ato que engloba muito mais do que simplesmente nos nutrir, mas também faz parte de uma necessidade de socialização, de interação com o outro, além de envolver questões afetivas e cognitivas de um indivíduo. Mesmo a família tentando rigorosamente retirar da vida do alérgico as proteínas “proibidas”, sabe-se que os riscos de contaminação são enormes, já que os alergênicos alimentares estão frequentemente “escondidos” nos alimentos preparados. Por isso, muitas famílias buscam terapias ativas como forma de tratamento da alergia alimentar.

As principais causas que levam as famílias a buscarem alternativas ao tratamento de exclusão das alergias alimentares são:

1. Buscar proteção contra ingestão de mínimas quantidades do alergênico, mesmo que de maneira acidental.

2. Diminuição da gravidade das reações

3. Facilitar atividades sociais

4. Se alimentar com mais liberdade

Você se enquadra em uma ou em mais de uma dessas opções acima citadas? Os pais de crianças que buscam a Imuno Terapia Oral (ITO) ou que recebem esta sugestão de terapia ativa do médico que está conduzindo o tratamento do paciente normalmente têm estes anseios e gostariam muito de melhorar a qualidade de vida não só do seu filho, mas da família como um todo.

Não existe protocolo padrão aceito mundialmente para a realização deste tipo de tratamento e também não é toda criança que pode ser eletiva a ele. Lembrem que mesmo no meio médico ainda há divergências quanto a melhor conduta perante o tratamento do paciente (conforme citamos acima). Porém, alguns alergistas já estão indicando este tratamento em casos específicos.

Via de regra os alergologistas preferem esperar que a tolerância oral aos alimentos venha de maneira espontânea, quanto menos invasivo o tratamento, melhor, porém, observando alguns fatores como por exemplo uma clínica exuberante (com reações mais graves e que tragam um real risco de vida ao paciente e uma queda considerável na sua qualidade de vida e da família), mais exames complementares que vão auxiliar no diagnóstico, o médico poderá indicar um tipo de terapia ativa, que é a Imuno Terapia Oral (ITO).

É importante enfatizar que somente o médico poderá saber se o caso específico do paciente tem indicação para este tratamento e também que não necessariamente a pessoa precisa ter um histórico de anafilaxias recorrentes para ser candidato a ITO. Aqui se aplica mesmo o clichê: “cada caso é um caso” e ratificamos: somente o médico alergista responsável terá a experiência necessária e poderá conduzir esta situação.

A proposta, mesmo com os protocolos variando, é a de oferecer mínimas doses do alergênico e ir aumentando gradativamente para que o paciente venha a adquirir a tolerância oral com o tempo. Como todo tratamento, existem os prós e os contras. Sabe-se de crianças que fizeram a ITO, não tiveram muitas intercorrências ao longo dele (reações adversas) e hoje comem a proteína que antes era “vilã” normalmente. Há outras que adquiriram EoE (Esofagite Eosinofílica – uma doença que acompanhará a pessoa a vida toda) durante o tratamento, ou que não conseguem consumir mais que uma quantidade “x” do alimento porque do contrário vão apresentar reações (neste caso o tratamento não liberou a dieta totalmente, mas melhorou o risco de ingestão acidental ou reações de contato e através do cheiro, o que acomete muitos pacientes mais sensíveis). Ainda existem muitas incógnitas e incertezas quanto aos resultados a longo prazo deste tratamento, já que ele é bastante novo (desde 2008). Por isso, caso você esteja interessado em fazer este tipo de tratamento no seu filho, é interessante pesquisar e perguntar bastante ao médico alergista, tirar as suas dúvidas e decidir junto com ele se vão realizá-lo ou não.

A minha ideia não é desencoraja-los, em absoluto, mas é apenas a de incitar a pesquisa para que possam pesar na balança com mais propriedade quais serão os custos e os benefícios deste tratamento junto ao médico, a Imuno Terapia Oral.

Falando do nosso caso pessoal, no final do mês estaremos agendando este tratamento para a nossa filha mais velha, a Camila. Ela fará 5 anos daqui a dois meses e devido ao seu histórico clínico (já teve mais de 8 crises anafiláticas, uma delas sendo idiopática – sem causa aparente) somado aos seus exames de IGe, além do fato dela ter pequenas crises alérgicas praticamente toda semana (pelo contato e muito provavelmente associado ao cofator exercício), conversamos com o médico dela e ele achou por bem iniciarmos este tratamento.

Camilinha sempre tem dessa reações mais leves que são de contato associadas ao exercício físico. Nem sempre precisa ser medicada, às vezes basta lavar a região afetada, mas por vezes toma remédios e sempre existe o risco de afetar as regiões mais sensíveis (mucosa) e ela desenvolver uma anafilaxia.

Não é um tratamento barato, não é tão simples de ser feito e requer muita responsabilidade e cuidado tanto por parte da equipe médica que vai conduzir quanto dos familiares que vão estar acompanhando de perto. Existem riscos (como reações adversas ao longo do tratamento e também estatisticamente uma grande possibilidade de desenvolvimento de Esofagite Eosinofílica), existem incertezas, mas pesando os custos e os benefícios, vamos prosseguir confiantes que será o melhor para a nossa pequena.

Não sabemos muito mais informações além destas que estamos dividindo com vocês, por isso, à medida que o tratamento for ocorrendo vamos compartilhando.

O nosso texto foi baseado na leitura do livro: “Imunoterapia no Tratamento das Doenças Alérgicas”, do Dr. Fernando Aarestrup. Também coletamos algumas informações na palestra ministrada no último congresso da ASBAI (Associação Brasileira de Alergia e Imunologia), em 2018 pela Dra. Ariana Yang, médica que muito admiramos.

Enfatizamos que não temos a pretensão em substituir os médicos na conduta do tratamento dos pacientes com alergia alimentar, pelo contrário, o nosso intuito é o de esclarecer um pouco a linguagem médica que por vezes é de difícil compreensão ou acesso para a maioria de nós, além de estreitar laços entre as famílias de alérgicos e a comunidade médica. Entendemos que só poderemos ajudar a estas pessoas portadoras de alergia alimentar quando estivermos unidos: profissionais da área de saúde, os familiares de alérgicos e a sociedade como um todo.

Agradecemos a oportunidade de estarem “nos ouvindo” e caso tenham alguma curiosidade ou dúvida e que eu possa ajudar, deixem nos comentários.

Um beijo,

Ju Jordán

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