Anafilaxia: entrevista com Dra. Elaine Gagete

18302762-065e-4c16-97e9-1b0d1160c6d2

Durante os dias de 20 à 23 de Outubro do ano passado (em 2018) nós tivemos a oportunidade de participar do XLV Congresso Brasileiro de Alergia e Imunologia promovido pela ASBAI, Associação de Alergia e Imunologia. Estivemos junto ao Movimento Põe no Rótulo, com a proposta de adquirir conhecimentos na área de alergia e imunologia, podendo replicar de maneira mais acessível ao público em geral, além de estar mais junto dos profissionais da área de saúde que estão ligados ao tema.

Sabemos que não somos médicos, nem da área de saúde e não é a nossa intenção substituir estes profissionais que são essenciais na condução e tratamento das alergias. Porém, a linguagem médica por vezes é bastante técnica e de difícil compreensão para uma parte da sociedade, por isso procuramos ser de alguma maneira uma “ponte” entre os profissionais da área e os pacientes e seus familiares. Entendemos também a importância dos vários “atores” envolvidos na condução dos tratamentos das alergias, como médicos, nutricionistas, psicólogos, fonoaudiólogos, entre outros profissionais, porém também os familiares dos alérgicos, estes últimos trazem as dores dos pacientes e as dificuldades no lidar do dia a dia com esta condição.

Por isso, vamos compartilhar com vocês a entrevista que tivemos oportunidade de fazer com a Dra. Elaine Gagete, médica alergista e participante da Comissão de Anafilaxia da ASBAI, responsável pelo site Anafilaxia Brasil (www.anafilaxiabrasil.com.br).

Confiram:

“Dra. Elaine, eu sou a Ju Jordán do TUDO SEM LEITE e estou representando também o movimento PÕE NO RÓTULO, somos parceiros. Gostaria de fazer algumas perguntas para a senhora, por gentileza.”

PERGUNTA: “Temos visto que cada vez mais os pacientes alérgicos têm demorado para “curar”, ou adquirirem a tolerância oral. Então como podemos melhorar a qualidade de vida dessas pessoas neste “meio tempo”?”

RESPOSTA: “Na verdade as alergias estão aumentando muito tanto em frequência quanto em quantidade e a gente ainda não sabe exatamente o porquê. Na medicina tem muita pesquisa e provavelmente é um conjunto de fatores. Então até que a criança consiga ficar tolerante, se é que ela vai ficar tolerante de uma forma espontânea, tem que realmente fazer a dieta com muito cuidado, então este tipo de site que vocês têm é uma coisa excelente. Eu sugiro que as mães que têm filhos alérgicos a leite ou a outros alimentos procurem sites confiáveis, porque infelizmente a gente vê que tem muita coisa esquisita na internet. Então estes sites como o que você criou, o PÕE NO RÓTULO, o ANAFILAXIA BRASIL, são sites de referência. Isso é uma coisa importante porque é um suporte para as mães saberem que não é apenas o filho delas que é assim, que existe muita coisa gostosa para ser feita, que é possível viver com alergia alimentar e com certeza aprender a utilizar a adrenalina auto injetável.”

thJAKO5NQN
Uma das canetas de adrenalina auto injetáveis que ainda não é comercializada no Brasil

PERGUNTA: “Como a gente faz, principalmente os leigos, para identificar sinais de anafilaxia numa criança ou num adolescente?”

RESPOSTA: “Na dúvida use adrenalina auto injetável porque é mais problemático você ficar na dúvida e não usar, a não ser que a criança tenha uma cardiopatia associada. Mas na infância e na juventude os riscos da adrenalina em doses corretas são riscos muito menores do que numa pessoa de idade ou numa pessoa com doença cardíaca. Então a minha mensagem é: veja se a criança está tendo sinais de anafilaxia e na dúvida use. Quais são esses sinais? Geralmente, em mais de 80% dos casos dá problemas na pele, mas não 100%. Então assim: urticárias, que são aquelas manchas vermelhas que coçam, ou ficar vermelha de uma hora para a outra, inchado, lábio inchado, olho inchado, a criança tem choro rouco, começa a falar rouco porque tem edema de glote, falta de ar, então começa a ter dificuldade respiratória, chiado no peito, e na alergia alimentar quase sempre a criança começa a ter diarreia e vômito associado, cólica e dor de barriga, quando são maiorzinhas eles falam. Nos bebês geralmente são sintomas de pele e a criança fica molinha, desfalecida, pálida, isso tudo de uma vez. Então assim, se a criança está tendo diarreia e no dia seguinte ela está espirrando, esta tossindo, provavelmente ela está tendo uma virose. Porque a anafilaxia é uma coisa aguda, então rapidamente e em alguns minutos esses sintomas vêm de uma só vez.”

3Uma das primeiras reações anafiláticas da Camila, onde ela apresentou angiodema, urticárias, tosse e espirros intensos.

2

PERGUNTA: “Mas podem vir dois associados ou três? Ou normalmente são todos mesmo?”

RESPOSTA: “Sim. O que eu quis dizer que existem pessoas que dizem que o filho teve uma anafilaxia porque estava todo vermelho, aí no dia seguinte teve diarréia e no dia posterior chiado no peito. Isso não era uma anafilaxia. Numa anafilaxia os sintomas são ao mesmo tempo. Não precisam vir todos, pode te por exemplo só chiado no peito e diarréia, às vezes não tem nem sintoma de pele.”

PERGUNTA: “Existe algum medicamento (como probióticos) ou alimento que de maneira cientificamente comprovada têm por finalidade prevenir alergias alimentares?”

RESPOSTA: “Não. O caso dos probióticos está comprovado que ajudam na dermatite atópica, mas na alergia alimentar infelizmente ainda carece de provas.”

PERGUNTA: “Amamentação na alergia alimentar. Quando restringir e quando liberar a dieta materna?”

RESPOSTA: “Isso é uma coisa bem séria, porque a gente vê muita mãe e infelizmente também muito médico falando que a mãe precisa parar de amamentar. Isso não é assim. Leite materno deve ser dado para todas as crianças. Existem pouquíssimas exceções de erros inatos do metabolismo, coisas muito raras, que o médico precisará falar “Olha, você não pode amamentar o seu filho”. A imensa maioria dos bebês devem ser amamentados. O que acontece é que as crianças com anafilaxia grave não podem ser amamentadas quando a mãe come comida à base de leite, isso para as crianças alérgicas ao leite de vaca. Então o que é que a gente faz? A gente restringe a dieta da mãe, e não o leite materno para a criança.”

PERGUNTA: “Mas se a criança não faz anafilaxia quando consome o leite materno, mas apenas uma dermatite leve ou outros sintomas mais leves? A dieta restritiva para a mãe deve ser mantida?”

RESPOSTA: “Não tem necessidade da mãe restringir. A gente vê muito isso, a criança com dermatite atópica, às vezes sensibilizada ao leite, e a mãe já fazendo toda aquela coisa de não poder usar bucha, mas não, não é assim. Essa coisa mais rígida da mãe ter copos, pratos em separado, isso é para a anafilaxia. Outras formas de alergia com reações via leite materno como a dermatite atópica não têm necessidade de restringir a dieta, isso atrapalha demais a qualidade de vida da mãe.”

PERGUNTA: “Para finalizarmos, como podemos conduzir a alergia alimentar melhor e com mais leveza?”

RESPOSTA: “Encarando que é uma coisa como outra doença qualquer. Existem crianças que têm diabetes. Você imagina como é difícil? Outras têm um problema mais sério, crônico, um problema sanguíneo, um problema neurológico. Essas condições eu acho muito piores do que alergia alimentar. Claro que a gente gostaria que todas as crianças fossem 100% saudáveis, mas se o seu filho tem alergia alimentar, tem alergia ao leite de vaca, isso não é o fim do mundo. Atualmente felizmente, ou infelizmente, ou vou dizer o porquê do infelizmente. É porque a alergia está aumentando tanto, tem tanta gente com alergia, que é fácil a gente encontrar produtos para alérgicos. Então isso é uma boa coisa para quem tem alergia, mas é infelizmente porque significa que a alergia está aumentando. Mas de qualquer forma a gente tem fórmulas adequadas, a gente tem o PÕE NO RÓTULO que foi uma conquista muito grande para os alérgicos, a gente tem vários blogs bons que ensinam como fazer a alimentação inclusiva, então atualmente não é um absurdo. Há 30 anos era muito complicado ser alérgico porque a pessoa não tinha nada disso do que têm hoje, essas conquistas dos alérgicos. Hoje em dia a gente consegue viver e viver muito bem com alergia alimentar, considerando algumas restrições e criança junto à família têm que aprender a conviver com isso.”

5f333741-1dc9-4ed5-b6da-09976f9f57c0

Então foi isso, pessoal.

Se tiverem alguma dúvida sobre o assunto, é só deixar seus comentários.

Beijos e boa semana para todos vocês.

Ju Jordán

 

Um comentário sobre “Anafilaxia: entrevista com Dra. Elaine Gagete

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s