Disciplina positiva e responsabilidade social

Há muitos anos atrás eu comecei a dar aulas para crianças (no centro espírita que eu frequento) muito mais como uma entusiasta, já que eu nunca tive formação na área de educação infantil, e confesso que me deparei com muitos desafios. Dentre eles, lembro bem que sempre existiam os pequenos “mais difíceis” e que tinham muita dificuldade em “se comportar” de maneira adequada na sala de aula. Então vocês imaginem que eu já passei por tudo, inclusive apanhar de uma criança, mas aprendi muito ao longo desses anos e curiosamente hoje vejo o quanto eu já conseguia, de maneira totalmente empírica, acertar. 

Uma das estratégias que eu utilizava em sala de aula era a de nomear um pequenino (dos mais “difíceis”) como meu monitor durante aquela semana. Então ele ficaria responsável por alguma tarefa durante a aulinha, ou seja: distribuir os materiais com os colegas, manter a sala limpa, ligar o som no momento apropriado, entre outras atividades de acordo com as suas habilidades e possibilidades. Isso funcionava muito bem, a criança que antes não tinha interesse na aula, que só batia nos colegas e até na “tia”, ou que parecia indiferente, agora participava ativamente e mostrava estar genuinamente feliz com isso. O que eu não sabia na época, mas pelo visto percebi de forma intuitiva, era que o que aquela criança precisava de verdade era suprir uma necessidade que existe dentro de todas as pessoas, sejam elas adultas ou não: a de valorização e de importância. Ela sempre tinha sido vista como um “problema” ou rotulada de “difícil” por onde passava. Mas ali conosco, durante aqueles poucos minutinhos da aula, ela pôde se sentir útil e que conseguia contribuir de fato para o bem estar de todos, inclusive dela mesma. 
Hoje através da Disciplina Positiva, vejo que isso que fazíamos lá atrás nada mais era do que a aplicação do conceito de responsabilidade social, que segundo Jane Nelsen é: “Ter real preocupação por uma pessoa e um desejo sincero de fazer uma contribuição para a sociedade”

Muitas vezes nós privamos as crianças de atividades que envolvem responsabilidade por pensarmos que elas ainda são muito jovens para tal, ou então por não termos tempo e disposição suficiente para as ensinamos. Então elas crescem não contribuindo, dessa maneira, dentro do seu próprio lar e consequentemente não se sentem úteis, importantes e muito menos capazes. Depois que crescem, elas mostram atitudes egoístas, nós as criticamos e gostaríamos muito que elas fossem mais responsáveis, mas como seriam se nós mesmos as ensinamos a não o serem? 

Aqui em casa estamos sempre procurando delegar atividades para a Camila fazer, bem como ela está sempre requisitando por isso. Uma das tarefas que é dela, por exemplo, é a de levar as roupas sujas de todos da casa para as cestas na área de serviço, inclusive as nossas, não apenas as dela. Uma vez uma das nossas diaristas me falou sobre o assunto: “Bixinha, Ju, tão pequenininha pra fazer essas coisas!”. Então eu delicadamente a convidei a refletir: “Mas Val, observe como ela fica enquanto cumpre as suas tarefas… Como você acha que ela se sente depois de tudo?”. Ela então me disse: “Feliz!”. E é bem por aí mesmo. A criança que colabora em casa se sente importante, já que pode contribuir de acordo com suas habilidades, além de valorizada e capaz.

Mila ajudando a preparar uns arranjos que ficariam no jardim da Bisa dela. 

Se nós pensarmos nas crianças como estagiários de altíssimo potencial, com um entusiasmo sem igual, além de muita facilidade para absorver novos conhecimentos, teríamos maior disponibilidade para as ensinar. Porém, ajudar a desenvolver habilidades novas requer tempo, paciência e disposição da nossa parte, o que muitas vezes não estamos dispostos a ofertar. O primeiro motivo é porque normalmente não queremos abdicar do nosso tempo livre que está cada dia mais escasso neste mundo moderno, o segundo, e talvez principal deles, é porque não compreendemos o quanto de bom isso pode fazer pelas nossas crianças.  

“Não faça por uma criança o que ela pode fazer sozinha por ela mesma”. Você já parou para pensar que quando fazemos demais pelos nossos filhos estamos lhes roubando o sentimento de que eles são capazes?  Eu nunca quis ver a minha filha crescer com esse sentimento permeando sua vida, por isso, uma boa maneira que encontrei para aplicar o conceito de responsabilidade social aqui em casa, com a minha filha de 3 anos de idade, foi fazendo uma lista de atividades da casa e nos reunindo todos (Mila, mamãe e papai) para delegar as tarefas. Colocamos no papel tarefas simples, tais quais: organizar a mesa para as refeições , retirar o lixo, colocar as roupas sujas no cesto, organizar a cama, limpar a casa, ajudar a trocar as fraldas da Luiza (irmã mais nova da Mila de 2 meses)… Sugerimos algumas delas para que Mila ficasse responsável, outras são de responsabilidade nossa, e ela aceitou muito contente e na hora de colaborar ela o faz muito satisfeita. Acho legal esclarecer que tomamos o cuidado para não darmos para ela “tarefas de mentirinha”, claro. Isso seria um total desrespeito. Ela aqui contribui de maneira genuína. 

Desde pequenininha já descascava sua tangerina antes de comer.

Uma criança que aprendeu a receber tudo o que ela precisa sem nenhum esforço próprio tem, além de tudo, o risco de se tornar revoltada e rebelde quando não conseguir exatamente o que ela quer. Ela não vai saber lidar com suas frustrações de maneira eficaz e poderá sofrer muito com isso. Quantas crianças você já presenciou “dando um ataque de birra”, quando na realidade elas só não estavam sabendo lidar com este sentimento de carência por valorização e importância? Elas queriam a atenção para si e só encontraram essa maneira de o fazerem. Imediatamente após o nascimento da irmã, eu presenciei um “outro lado” da Camila. Ela chegou a bater em outras crianças, coisa que nunca tinha feito na vida. Ela gritava “sem motivo”, não queria dormir, não queria comer, não queria tomar banho, e foi um período muito difícil para todos nós. Mas com muita paciência, empatia e amor, essa fase mais “crítica” foi mais fácil de ser enfrentada. Onde poderíamos pensar: “onde foi parar a nossa menininha doce e carinhosa?”, demos lugar para o seguinte pensamento: “nossa filha está precisando muito de nós”, e fizemos de tudo para que ela se sentisse acolhida, amada, valorizada e importante. 

Em meio à turbulência da chegada de uma irmã, a minha primogênita foi então muito demandada. Foi um tal de: “me ajude com um banho aqui, joga essa fralda no lixo ali, vamos cantar para ver se ela consegue dormir?”. 

Eu não acredito em mudanças radicais, principalmente em se tratando da infância. Então as coisas não aconteceram do dia para a noite por aqui e ainda existem muitas e muitas tarefas que gostaríamos que a Camila colaborasse mais, como por exemplo a organização dos seus brinquedos. Porém, ela tem mostrado um avanço significativo depois de pequenas atitudes tomadas da nossa parte. Ainda estamos,inclusive, ajustando a nossa rotina por aqui, por exemplo: envolvendo outras pessoas na nossa dinâmica de colaboração (como as diaristas). Tudo sem pressa, no nosso tempo e no dela também. 

Então é isso, pessoal. Um pouquinho de responsabilidade social na nossa vida faz bem para todos que estão ao nosso redor, ajuda a vivermos em um ambiente mais harmonioso e tranquilo. As criancas, por sua vez, são mais colaborativas e têm sua auto estima elevada. Eu tenho me surpreendido muito positivamente com os resultados de utilizar da responsabilidade social no meu lar.

Beijos,

Ju Jordán 

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