Introdução Alimentar 

A Introdução alimentar de um bebê é um assunto que preocupa bastante as mamães, principalmente as de primeira viagem, como eu. Perguntas como: “será que meu filho vai comer bem?”, “o que oferecer para ele?”, “como devo preparar as papinhas?”, “qual o limite entre insistir para que meu filho coma ou forçá-lo a comer?”, “será que ele comeu o suficiente?” ficam mesmo nas mentes maternas, sempre preocupadas com a saúde e bem estar dos seus filhotes.

Mas e a introdução alimentar de um bebê alérgico? É ainda mais difícil. Neste caso, todo cuidado é pouco porque um alimento que pode significar vida e nutrição adequada para a maioria das pessoas, para a criança alérgica pode ser sinônimo de mal estar e reações adversas podem acometê-lo.

Vou contar para vocês como foi o nosso caso aqui com Camila. Adianto que não foi nada fácil. Passamos por muitas dificuldades de uma maneira que eu nunca poderia sequer imaginar. Hoje já avançamos bastante, por isso resolvemos compartilhar.

Camila passou pela amamentação praticamente exclusiva até os 6 meses de vida dela. Essa sempre foi nossa intenção e graças a muita perseverança, insistência e coragem nós conseguimos  (porque tivemos um início meio complicado com muitas dores, doença física, além do fato de Camila não ter engordado como a maioria do a bebês engorda — mas isso deixo para um próximo post específico sobre a amamentação).

Com 6 meses e depois de orientação do pediatra, oferecemos a ela as frutinhas, uma por semana, uma vez ao dia (o leite materno continuava, como até hoje, em livre demanda). Ela comeu banana, mamão, pêra e maçã. Para as duas primeiras inicialmente não apresentou nenhuma reação e pareceu adorar. Já as duas últimas ela apresentou um certo desconforto (diarréia, dermatite atópica e muitas cólicas). Na segunda semana que oferecemos a banana foi quando começaram para valer as dificuldades. Ela vomitou em jato 16 vezes em menos de 30 minutos. O pediatra me orientou a ir imediatamente ao hospital. Na semana seguinte vomitou em jato 14 vezes o mamão. A essa altura o médico da Camila já estava desconfiado da APLV (alergia a proteína do leite de vaca) e me pediu para iniciar uma dieta livre de leite e derivados, ao passo que solicitou alguns exames de sangue para a nossa pequena e nos encaminhou para o acompanhamento de uma gastro pediatra de sua confiança. Os exames dela mostraram que ela estava moderadamente sensibilizada ao ovo, mas muito sensibilizada ao leite de vaca, ou seja, ela tinha a APLV mediada por IGe. Ainda tentamos dar banana cozida a ela (por orientação médica), mas os vômitos em jato vieram com a mesma força.

Não sei se vocês sabem, mas comumente os sintomas de uma criança com APLV mediada por IGe (Imunoglobulina E) são diferentes dos de outra com a mesma alergia, só que sem alterações nesse sentido. O primeiro caso é de mais fácil diagnóstico, apesar de que um exame por si só não é determinante da doença (o profissional médico precisa do histórico clínico da criança para fechar o diagnóstico independente do resultado dos exames de sangue). Porém, os sintomas costumam ser os mais graves, podendo chegar ao choque anafilático, que pode ser fatal.

Depois do diagnóstico, toda a nossa postura com relação à introdução alimentar mudou. Eu precisei fazer uma dieta livre de leite e derivados para deixar o leite materno livre de “contaminação” para Camila. Ela iria experimentar cada alimento individualmente com muita cautela. Ela estava bastante sensibilizada e ate então não sabíamos ate que ponto ela tinha alergia à banana e ao mamão, bem como às outras frutas (maçã e pêra), ou se os sintomas apresentados era apenas devido à sensibilização ao leite de vaca (presente na minha dieta antes da descoberta da alergia – APLV). Fomos introduzindo os legumes um a um e demos uma pausa nas frutas (estas têm mais chances de causar alergias nas pessoas). Ela apresentava reações a todos os alimentos que comida. Não importava qual déssemos, ela apresentava urticárias, coceiras, às vezes diarreia e desconforto como cólicas. Gritava sem parar. Chorava muito. Foi um martírio que não parecia ter fim. A gastro chegou a citar que estava desconfiada de alergia a múltiplas proteínas, que basicamente é alergia a comida. Existem raríssimos casos desse no mundo e isso nos deixou ainda mais preocupados. Na contramão de tudo isso, Camila não estava perdendo peso. Pelo contrário, ganhava devagarzinho, mas ganhava seus 250 gramas/ mês. E o melhor: o estado geral dela era sempre muito bom. Uma criança alegre, que brincava e apresentava sinais de crescimento e desenvolvimento intelectual e físico. O leite materno “turbinado” da mamãe estava fazendo alguma coisa por ela, porque ela mamou até os 11 meses de vida praticamente de forma exclusiva.

Dos 8 meses aos 11 meses demos um tempo, por orientação médica) para que Camila se dessensibilizasse e pudéssemos retomar a introdução alimentar da nossa pequena. Eu era a única fonte de alimento dela e foquei numa dieta super balanceada e nutritiva (com acompanhamento de uma profissional da nutrição).

  
Depois disso, fomos à uma interconsulta no HC (Hospital das Clínicas) e Camila foi atendida, ao mesmo tempo, por uma equipe de alergia alimentar do hospital, junto com a gastro pediatra dela. Passamos um mês medicando ela e a preparando para a retomada da introdução alimentar. A desconfiança era que Camila apresentava mais alergias de pele que alimentares propriamente ditas, por isso, esse tratamento seria fundamental para que ela estivesse livre desse desconforto e pronta para comer. Parece até um pouco confuso, mas em termos de investigação de alergia alimentar é assim mesmo o procedimento. É tentativa e erro mesmo, não tem jeito! Por isso,  experiência dos profissionais que estavam e estão cuidando dela contou bastante.

Foi aí que ela começou a comer vários alimentos sem apresentar reações alérgicas. Começamos a achar a “mini cesta básica” para a Camila e já podíamos montar um cardápio. O esquema basicamente era: um alimento por vez durante 3 dias, dando tudo “ok”, podíamos acrescentar outro e por aí foi.

Acho que é importante eu destacar que existem, por estatísticas, alimentos mais propensos a causarem sintomas alérgicos nas pessoas, mas como diz a gastro da Camila, não é o alimento que dá alergia, mas é a pessoa que é alérgica a ele, ou seja, pode ser que você tenha alergia a uma coisa que não é comum dentre os “alergênicos”, e vice versa. Camila é prova disso porque nunca apresentou qualquer sintoma ao morango (dito como alergênico comum), mas vomitava em jato a banana (tão pouco alergênica). Gente, eu confesso a vocês que a intuição de mãe pesou muito nesse caso. Eu abri meu coração e fui testando alimento por alimento, mesmo os que não estavam na lista dos “mais seguros” porque Camila parecia estar na “contramão”.

Depois de encontrar a “cesta básica” para Camila, ainda tínhamos que enfrentar o problema da aceitação (comia 3/4 colheres, depois disso cuspia tudo, chorava e gritava). Precisamos ter muita paciência e perseverança. A criatividade entrou em cena e como percebemos que Camila só queria comer sozinha e não com a colher, mas com as mãozinhas, hoje tentamos fazer as comidas de uma forma que, no geral, ela possa ter mais autonomia na hora de comer. Então: Arroz japonês grudadinho, bolinhos de carne, frango bem molinho em pedaços pequenos, legumes em cubinhos, milho cozido e partido em blocos (ou damos o sabugo com um pouco de milho para ela roer). A nutricionista que acompanha Camila nos deu muitas dicas maravilhosas e me deu a força que eu precisava para continuar. Quem acompanhou de perto sabe que há três meses ela era uma criança aflita na hora das refeições e hoje quando a convido para almoçar ela dá um gritinho de felicidade e abre aquele sorriso!

  
   
   
  Acho que a maior lição que tirei de tudo isso foi que sem o respeito á individualidade da Camila talvez ainda estivéssemos na estaca zero. Talvez eu estivesse tentando “empurrar” comida goela abaixo da minha filha por despreparo, por falta de informação, por insegurança, mas também amor, por medo de perdê-la para uma doença qualquer. Os nossos filhos estão aí sempre nos dando pistas de como devemos agir com assertividade na educação dos mesmos, só nos basta prestar atenção e ter coragem para enfrentar as dificuldades. Enxergar o problema não como obstáculo, mas como desafio é fundamental para que possamos nos sentir seguros de que no final das contas tudo dá certo!

  
Então é isso, gente! Se você ficou com alguma dúvida, não se acanhe de deixar seu comentário e ficarei feliz em responder. Se preferir, pode me mandar um e-mail também. Esse espaço não é meu, mas é nosso! Vamos aproveitar.

Beijão.

Ju Jordán

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12 comentários sobre “Introdução Alimentar 

  1. Olá, estou realmente emocionada com seus posts. Descobri que minha filha Tina APLV com 3 meses de idade. Fiz a dieta de exclusão e como aqui em minha cidade temos carência de pessoas especializadas na área de saúde, foi, e ainda é complicado! Obrigada por compartilhar suas dificuldades e conquistas.

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  2. Gostei muito do post. Estamos começando a IA do meu bebê. Mamou exclusivo até 6 meses( eu na dieta), mas não estabilizou. Tivemos que inserir o pregomim( ainda em teste). Está aceitando melhor. Mas pir enquanto frutinhas e almoço está difícil. O que ele quer mais é mamar. Obrigada pela ajuda.

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    1. Que bom que ajudou de alguma forma, Aninha.
      Tenha força e acredite: seu bebê vai se alimentar melhor! Pode ser que demore um pouco mais que o “normal”, mas pelo
      caso de Camila estou vendo na prática que é possível um bebê que só esperneava na hora das refeições pedir pela comidinha e até bater palmas quando chega a hora de se alimentar.
      Hoje nas viagens e nos restaurantes ela ainda dá um pouco de trabalho para comer, mas em casa normalmente tem se alimentado melhor.
      Beijão

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  3. Oi Mamãe! Eu sou a Jéssica do Instagram. Sou mamãe da Maria Luiza diagnosticada com Aplv com 5 meses. Lendo seu depoimento me dá força pra insistir com a introdução alimentar. Ela rejeitou as frutinhas e mama muito muito pouco o leite Alfamino. Na semana que vem inicio com as papinhas salgadas e volto contar como foi. Grande beijo, fiquei emocionada com sua força e dedicação.

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  4. Oi Ju!
    Descobri a APLV na minha pequena quando ela tinha 1 mês e meio. Consegui amamentar até os 5 porque mesmo com a dieta ela não estabilizou. Estava indo muito bem com o neocate. Comecei a introdução de frutinhas essa semana (banana e depois pêra) e hoje de manhã, pimba! Sangue no cocozinho. Fiquei muito triste e vim procurar aqui como foi com a Cami linda, já q vc é minha musa Mamãe APLV! Estava acabada, já estou melhor só de ler a história de vocês e a perseverança que você tem! Muito obrigada por compartilhar sua história com a gente!
    Beijos!!

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  5. Oi ju! Então, introduzi a alimentação na bebe há 3 dias, inicialmente com O chuchu apenas, e ela vomitou mais de 10 vezes no terceiro dia. Estou meio perdida, continuo com o chuchu, ou o considero vilão e parto pra outro alimento? por essa eu não esperava…mas lendo aqui o seu post vi que isso pode ocorrer e que eu tenho Q estar preparada. Confesso que fiquei arrasada. Beijo grande

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    1. Aiiii Mari! Que dor no coração deve ter sido para você… 😞😞😞. Vocês já estão num Gastro?! Acho que tem que ter a orientação deste especialista de como serão os próximos passos daqui para a frente, mas provavelmente vai mandar pular este alimento e ir testando um próximo. Como ela é muito pequenininha, eu não faria testes invasivos por enquanto. Eu até hoje não consegui arrumar coragem para testar a banana novamente, nem o mamão. Vou aguardar o tempo passar… Força amiga! Muita força!!! Tudo passa um dia! ♥️

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  6. Cada dia que lei um Post fico mais forte para continuar. A primeira crise de colite da minha Camila, ela tinha 1 mês e alguns dias, já não comia nada com leite e derivados, soja, carne vermelha (não como a 17 anos), por orientação da minha nutricionista para evitar as cólicas. Diante do ocorrido o pediatra retirou os nuts tbm, e deixou o ovo sob análise. E observamos. Ela nunca ganhou o peso esperado, mas crescia e ganhava perímetro cefálico, estava tranquila, mas com a luz de alerta ligada. Aos 4 meses, mesmo com a dieta restritiva ela teve outro episódio de colite (sangue nas vezes visível) marquei uma Gastro, sem meu pediatra pedir.
    Como não ganhava tanto peso, na consulta de 3/4 meses pediu para entrar com leite artificial mas como sou super a favor do aleitamento materno, ordenhava e complementava com meu leite e assim ela conseguiu engordar algumas gramas e crescer centímetros.
    Na Gastro me passou diversos exames de sangue e vezes e para nossa surpresa, ainda tinha sangue oculto nas vezes, mesmo com a dieta.
    Pediatra na mesma hora restringiu o ovo, por 4 semana, e encaminhou para a Gastropediatrabde sua confiança.
    Na Gastro confirmamos a aplv, já tínhamos certeza disso, além da alergia a soja, nuts e ovo. Já tinha começada a introdução, mas com bastante cautela um alimento a cada 4 dias e ela não teve reação visível, mas rejeitou bastante, ainda rejeita é só quer comer no método blw e como passarinho. Estamos respeitando e aos poucos dando. Segue no aleitamento materno, e por orientação da Gastro fiz a melhor coisa de não ter dado nenhum outro leite. E aumentamos a ingestão de alimentos para buscar de peso e crescimento do 5 para 6 meses não teve nenhum ganho de peso, crescimento e perímetro cefálico.
    Quando descobri o site da Ju e da Camila, foi maravilhoso pq não é fácil a dieta restritiva, as críticas das pessoas, principalmente pq a minha Camila é magrinha.
    Mas a cada dia viu vencendo. Vamos começar a reintrodução por meio da minha dieta, estou tensa, mas espero que nao tenha reações visíveis.
    Obrigada a todas por compartilharem seus experiências porque é essencial para nosso amadurecimento. Ser mãe é um caminho do batalhas a serem vencidas, abdicação e amor. Nunca me arrependo de não comer nada pq sei que estou fazendo o melhor para minha Camila.

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    1. Karine, me emocionei com seu depoimento. Me identifiquei com algumas partes. É isso aí: paciência e coragem para enfrentar as dificuldades e amor que sei que você tem de sobra, do contrário não estaria aqui. Beijão e estamos juntas ♥️

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  7. Juliana! Preciso muito falar com vc! Tô na mesma situação, tô amamentando exclusivo no peito minha bebe de 8 meses pq não consigo fazer a IA e ela nunca estabiliza. Não acho apoio de médicos, tds só querem dar fórmula. Eu não quero e não vou tirar a amamentação. Pode me jndicar algum profissional que me ajude? Meu e-mail: carlagodoi2009@gmail.com

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